Entrevista com o Dr. Fidélio Sitefane

JPEGPara esta edição tivemos o privilégio de conversar com o Dr. Fidélio Sitefane, médico do Instituto do Coração (ICOR) desde 2010. Foi bolseiro do Governo Francês entre Outubro de 2014 e Novembro de 2016.
Em 2011 iniciou a sua pós-graduação em Cardiologia Geral no ICOR onde beneficiou-se de uma bolsa de 2 anos para formação complementar em França. Em Paris, o pós-graduando, fez formação em cateterismo cardíaco pediátrico e o diploma universitário em cardiologia pediátrica pela Universidade Paris Descartes, Paris V. Durante a sua formação em Paris, destacou-se por ter sido o segundo melhor classificado no grupo dos cursantes do diploma universitário tendo merecido elogios do ilustre Professor Daniel Sidi.
Após o seu regresso de Paris, em Novembro 2016, o Dr. Sitefane começou a realizar no ICOR o cateterismo pediátrico de forma regular e rotineira. Anteriormente, este procedimento era realizado por médicos missionários estrangeiros que vinham 2 a 3 vezes por ano a Moçambique.
A sua formação em cateterismo e cardiologia pediátrica permite-lhe a realização de diagnósticos pelos sinais e sintomas dos pacientes assim como atráves da realização de exames auxiliares de diagnóstico, e em alguns casos o tratamento de malformações cardíacas por cateterismo cardíaco intervencional, evitando a realização de cirurgias cardíacas.
Neste momento, o Dr. Sitefane e sua equipa são os únicos em Moçambique a realizar o cateterismo pediátrico.

Conta-nos como nasceu esta vontade de ir para França fazer esta formação?

Após a minha admissão no ICOR, trabalhei 15 meses consecutivos na enfermaria das crianças com problemas do coração e isso levou-me a ganhar gosto pela cardiologia pediátrica e despertou-me o desejo de saber mais sobre esta problemática para melhor ajudar as nossas crianças. Acredito que pela minha entrega e dedicação a Professora Beatriz Ferreira propôs-me a possibilidade de formação nesta área, o que encantou-me.

Como foi em França? Já falava francês?

(Risos...), complicado nos primeiros dias, sobretudo a temperatura...ainda recordo-me como se fosse hoje, cheguei no dia 01 de Novembro de 2014, fui logo recebido por um frio terrível. O segundo choque que tive, foi do ponto de vista cultural, as pessoas comunicam-se muito pouco com as outras (vizinhos), cada um cuida de si. Mas, depois de 4 meses começei a sentir-me integrado na comunidade, à medida que conhecia o seu modus vivendi. Em relação a língua, já tinha algum conhecimento porque a Embaixada de França providenciou um curso para permitir a minha fácil integração. No hospital sempre fui bem acolhido desde o meu primeiro dia de formação. Os colegas de Paris são como uma família para mim. Esta amizade permanece até hoje.

Em poucas palavras o que é o Cateterismo pediátrico?

É um procedimento que permite o diagnóstico assim como o tratamento de algumas malformações cardiovasculares nas crianças. É realizado com a ajuda de pequenas cateteres que permitem o estudo de uma determinada região do coração ou dos vasos sanguíneos, assim como o tratamento de algumas malformações como a persitência do canal arterial (PCA), comunicação interauricular (alguns tipos), entre outras.

Então, este procedimento pode substituir a cirurgia cardíaca?

Não. Cada procedimento tem seu espaço na cardiologia e naturalmente há vantagens e desvantagens em cada um deles. Em maioria das situações o cateterismo funciona como um farol para a cirurgia. É verdade que, na presença de anomalias menores o cateterismo pode tratar, com a colocação de stents (malhas metálicas) ou de dispositivos evitando riscos cirúrgicos, diminuindo tempo de internamento e evitando cicatrizes grandes em crianças. Imaginemos que para um mesmo procedimento, por exemplo, encerramento de PCA o cirurgião deixa uma cicatriz de 7 – 10 cm e por cateterismo a cicatriz é quase microscópica de 5 mm. Mas devo referir que, na grande maioria das malformações cardíacas, o tratamento ainda é exclusivamente cirúrgico.

Acha que estamos equipados em Moçambique para realizar este tipo de intervenções?

O ICOR, acho que sim. Apesar de algumas limitações, mas estamos preparados para realizar estes procedimentos e acreditamos que ainda somos os únicos que investimos nesta área em Moçambique.
JPEG
Diz-me quem são os beneficiários destes procedimentos?

Todas as crianças, adolescentes e jovens portadores de problemas cardíacos com indicação para a realização do cateterismo. Este procedimento é gratuíto (consultas, internamento e medicação) para todas crianças e jovens menores de 21 anos de idade com doença cardíaca e que não tenham condições económicas para sustentar este tipo de procedimentos. Recebemos crianças provenientes de todas partes do país e em grande maioria, referidos pelos hospitais públicos.

O ICOR consegue satisfazer os pedidos.

Até ao momento sim, mas com ajudas externas, doações. Infelizmente esta actividade não é auto-sustentável, pelo seu carísma humanitário. Precisa de muito mais para poder atender a mais casos.

Quantas crianças são atendidas semanalmente?
O ICOR recebe novos casos cerca de 5 a 10 crianças por semana, mas nem todas são elegíveis para o cateterismo. No concernente ao cateterismo cardíaco pediátrico, desde Novembro de 2016 realizamos cerca de 60 procedimentos dos quais 15 foram curativos e os restantes diagnósticos.

Uma vez que em Moçambique o ICOR é o único hospital a realizar o cateterismo pediátrico regularmente, a sua equipa está preparada para o desafio? Como a formou?

Quando cheguei em Paris, encontrei uma equipa sólida e dinâmica. Esta equipa serve-me de modelo para a formação da equipa que trabalha comigo no cateterismo pediátrico. Aqui em Moçambique a equipa é jovem, motivada, composta de médicos, enfermeiros e técnicos que se identificam com esta causa. Naturalmente que, a boa vontade não é tudo, por isso optamos por formações contínuas de capacitação do pessoal pois para trabalhar nesta área é necessário ter conhecimentos específicos, e sentimos que cada vez mais há melhor entrosamento da equipa de trabalho.

A partir de que idade se pode realizar o cateterismo?

Logo a nascença, embora em Paris tenha assistido a realização de alguns procedimento nos fetos ainda no útero da mãe. Mas, esta ainda não é a nossa realidade. Quem sabe num futuro próximo...

Algum momento que lhe tenha marcado?

(Pensativo...); Bom, eu diria que tudo é marcante, cada criança é uma vida e poder melhorar a vida e devolver o seu sorriso é gratificante. Lembro-me de uma criança de apenas 4 dias de vida que tive de realizar a manobra de Rashkind (est un geste de cardiologie interventionnelle pratiqué le plus tôt possible après la naissance chez les nouveau-nés présentant une transposition des gros vaisseaux. Cette manœuvre vise à créer artificiellement une large communication entre l’oreillette droite et l’oreillette gauche) que possibilitou a sobrevivência e a realização da cirurgia de cura completa 28 dias depois com sucesso.

Quais são os principais desafios?

Continuar a trabalhar e difundir o conhecimento nesta área por todo o país. Contribuir para melhoria da qualidade do diagnósticos e tratamento na cardiologia. Gostaria de fazer publicações nacionais e internacionais. E quem sabe, tornar a actividade do cateterismo pediátrico auto-sustentável para permitir o tratamento de mais crianças em Moçambique, pouquoi pas!

Tem encontrado pessoas interessadas em formar-se no cateterismo pediátrico?

Ainda não, mas a formação deverá ser um desafio. Estamos numa fase de consolidação da equipa, aprendizagem e crescimento profissional. Não podemos esquecer que esta é uma área pouco conhecida pela classe médica. Naturalmente ser o único a ter conhecimento nesta área não me deixa confortável, mas tenho uma equipa de cardiologistas, cirurgiões cardíacos, anestesistas, técnicos e enfermeiros que têm dado todo o suporte para eu poder continuar a desenvolver com sucesso esta actividade.

Em França alguma experiência marcante?

Bom, sim! Participei em cerca de 1500 procedimentos, nunca pensei acontecer isso na minha vida... E claro, ter passado no diploma de cardiologia pediátrica como segundo melhor cursante numa turma em que eramos 42 estudantes e eu era o único proveniente de um país não francófono, isso foi super.

Alguma coisa gostaria de acrescentar?

Agradecer a Embaixada de França pela bolsa que concedeu a mim e aos meus colegas (formados em diversas áreas), assim como por esta oportunidade de poder partilhar a minha vivência em França e falar da cardiologia e cateterismo pediátrico em Moçambique. Devem imaginar que restituir o sorriso nas crianças é o melhor que há na vida, é GRATIFICANTE! .

Muito obrigada e sucessos.

entrevista por ABié

Dernière modification : 01/06/2017

Haut de page